• Cleise Souza

Olhai os lírios do Campo

Atualizado: Ago 26


A escrita pode ser uma forma de expurgar as nossas frustrações, minimizar as dores da alma, clarificar os pensamentos, para finalmente “aceitar as coisas como elas são.” O meu mais novo aprendizado foi com o resgate de três gatinhos de rua.

Da janela do meu apartamento, no 4º andar, ouvia o miado de uma gatinho preto, abandonado pela mãe. Ele transitava, aflito, do muro de arrimo de contenção do prédio de frente ao meu, e se escondia num destes canos de PVC que escoa água de chuva que vem da rua de cima da escadaria.

Como numa catarse, comecei a cuidar dele, durante um mês. Dava comida e água, fiz uma casinha de caixa de papelão e uma caminha de jornal com alguns tecidos. Conversava com ele e me autodenominei “titia”.

Com a chuva e frio estarrecedor, e já aceito pelos irmãos, escondiam debaixo de carros na garagem do prédio vizinho.

Conversei e pedia a orientação da Nélcia, uma protetora de animais, sobre o que fazer. E fui aprendendo grandes e valiosas lições que posso enumerar.

1ª- TRABALHANDO O EGOCENTRISMO - Quando dava comida para ele, achava que deveria ser só para ele. Mas aprendi que a partilha faz parte da boa convivência. Quando liberei mais alimentos para todos, ele passou a ser respeitado pelos irmãos que o incluíram no sistema.

2ª – POR QUE A MÃE O ABANDONOU?

Não se sabe os reais motivos do “abandono”. Trabalhei aqui o não julgamento dessa mãe. Quando julgamos os atos do outro, colocamo-nos como “juízes”. E se julgamos, seremos julgados.

3ª – NÃO ESTAMOS NO CONTROLE - Mais uma vez, a minha preocupação era apenas com aquele que eu sentia que estava excluído do sistema, porém em dois dias de trabalho para resgatá-los, ele foi o último. O universo me mostrou que os outros dois também precisavam de um lar. E que o esforço para resgatar um, poderia ser destinado para mais dois, sem muito desgaste.

4ª- LEI DA SINTONIA – Mesmo sendo incompreendida por muitos moradores e amigos por me dedicar a gotos de rua, tudo estava certo.

Enquanto corria de lá para cá, durante dois dias, para capturá-los, conheci pessoas incríveis que estavam na mesma sintonia.

A Nélcia que dedica o seu tempo mantendo um bazar beneficente para ajudar os animais abandonados. Um nobre causa, com certeza .A uma de suas amigas que nos emprestou a “gatoeira” com boa vontade e disponibilidade de nos trazê-la. O síndico do prédio vizinho, que se disponibilizou a nos receber fora de hora na garagem dos carros, esconderijo dos felinos.A um morador deste mesmo prédio que abria, em pleno domingo, a garagem pelo controle remoto do seu apartamento, várias vezes. A Mariana que nos emprestou a caixinha de trasnportes. A Larissa que tirou fotos e as postou nas suas redes sociais buscando adoção, fazendo conexões e dando informações precisas sobre os gatinhos. A Débora, que ofereceu petiscos irrecusáveis de carne para os atrair até a gatoeira, e que lutou com unhas e garras para os pegar com suas próprias mãos. A Fran que disponibilizou a sua casa e recebeu os três irmãos no seu quarto de hóspedes, apoiada e auxiliada pelo seu marido, Mateus. O veterinário, Elder, que analisou e diagnosticou os três sem cobrar honorários de consulta. A Júlia, estudante de veterinária, que foi suporte e apoio, acompanhando, tirando fotos, divulgando-as e dando carinho aos felinos. Lembro aqui que são dois machos e uma fêmea. O pai da Larissa que os levou para fazer exames de sangue e todos estão saudáveis.

5ª – TRABALHANDO O DESPEGO - Mesmo tendo duas maltesas ( Branca e Lara) em casa, eu pensava que pudesse trazer o Pretinho ( assim o batizei) para morar conosco.

Fiquei empolgada porque ele me reconhecia, me aceitava e foi capturado pela minha voz e pela minha energia, sem precisar da jaula. Veio livre até a caixinha rosa de plástico da Branca. Arrumei o quartinho para o receber: cama fofinha, água, comida, caixinha de areia, arranhador. Mas nada disso fez sentido para ele naquela noite, pois ele queria liberdade.

Branca e Lara, curiosas e impacientes, cheiravam pela fresta da porta a nova “espécie invasora”.

Liberei todo o apartamento para ele, menos a varanda e o meu quarto, porque estávamos confinadas lá .Mas isso não bastou. Ele miava um choro de dor, de prisão a noite toda. Então percebi que ele não era meu. Trabalhei o desapego e o liberei.

6ª- QUEM NÃO TEM CÃO, CAÇA COM GATO- Na minha visão distorcida, acreditava que o gatinho inofensivo, poderia ser atacado pela Lara que é mais impulsiva e dominadora. Tive um pesadelo em que ela o atacava e o machucava. Ledo engano. A Cida me contou que gatos quando se sentem ameaçados, viram feras e podem até matar cachorros.

7ª – PARA QUEM ENTENDE, UM PINGO É LETRA – Não precisei passar pela experiência real dos ataques. A minha intuição e proteção espiritual me proporcionaram agir, imediatamente, de outra forma. Liberei o Pretinho para a vida com outro tutor. Dois já encontraram um lar. E o terceiro também encontrará o seu. Enquanto isso, permanece como hóspede na casa da Fran.

E saber que fui apenas um elo desta grande corrente do bem, me fez sentir mais humana, mais conectada, confirmando a minha crença de que há uma razão para tudo o que nos acontece.

8ª – REPENSANDO A MINHA FÉ- Olhai os lírios do Campo - Como eles crescem, não trabalham nem fiam, e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer um deles. Pois se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?

9ª – TRABALHANDO A ANSIEDADE – Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã, cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal ( Mateus 6: 25-34)

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Prazo de entrega:3 dias uteis

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