• Cleise Souza

O Oiti que não sabia da sua força

Sou um oiti de quase 40 anos e estou plantado numa várzea nas Minas Gerais.

Mesmo me encantando com as histórias sobre o mar, gosto de viver aqui.

Vivo no meio de uma linda floresta.

Por aqui são tantas árvores, que por muito tempo me confundia com um jacarandá. Ele também é muito bonito e, de vez em quando floresce com as suas flores roxas que contrastando com o verde dão uma beleza singular na natureza. Tem também por aqui muitos ipês nas cores amarelas, roxas e brancas que também alegram e dão leveza para aqueles que nos olham.

Mas eu sou diferente. Não sou jacarandá e nem ipê. Aprendi isso recentemente, quando parei para pensar nas minhas origens.

Tenho um nome bem diferente que é Licania tomentosa, mas para os íntimos sou um oiti.

Posso atingir até 15 metros de altura, mas o meu tronco não é grosso, medindo entre 30 a 50 cm. Sou feliz por ter este biotipo, pois me deixa esbelto sempre.

As minhas folhas são lindas, pois são alongadas e verdes. Ao longo do meu desenvolvimento, elas foram mudando de cor. Antes mais claras e agora um verde musgo de dar inveja em muitas outras plantas por aqui.

Também, em algum momento do ano, floresço. Minhas flores são brancas e pequenas e contribui para atrair a fauna, como pássaros e insetos que dão vida ao local. Ainda não dei frutos, mas eles virão na época certa para perpetuarem a minha espécie.

Quando criança, recebi os cuidados da minha mãe e do meu pai e me sentia feliz rodeada pelos quatro irmãos. Porém quando ainda criança, a vegetação foi incendiada e meu pai, não resistiu aos ataques do fogo. A minha mãe, desalentada, assumiu o comando de toda a vegetação, tornando-se forte, altiva e decidida. Quando olho para mim a vejo nas minhas atitudes e comportamentos.

Mas o que me intriga é esta solidão que sinto, de quando em vez, por ter que resolver tudo sozinho.

Como os meus galhos são bem fortes e aconchegantes, vira e mexe um animal vai chegando devagarinho, se aproximando e quando dou por mim, já está instalado como se tivesse na sua própria casa.

Isso me aborrece, porque eu busco companhia, mas da mesma forma que sou doador, quero ser receptor. Essa é a Lei.

Dia destes, veio de mansinho um lindo gato.

No início fiquei apenas observando os movimentos dele. Me achou bonito e atraente. Viu que eu era forte e altivo e foi se aninhando, subindo pelo meu tronco, me elogiando sempre e eu me encantei e o deixei ficar ,mesmo sabendo que era uma espécie muito diferente da minha.

Com o tempo fui me sentindo incomodado com ele. As suas histórias eram sedutoras, mas eu nunca fazia parte delas. Os meus dias foram ficando tristes até que num belo dia, passeando por ali, uma fadinha, já cansada do seu fazer diário, sentou-se um pouco para descansar sob as minhas folhagens e ficou me olhando por um grande tempo, sem nada dizer.

O silêncio dela me incomodava, porém de repente ela abriu um grande livro de histórias que trazia na sua bagagem e começou a ler em voz alta uma das suas histórias favoritas que dizia assim:

Era uma vez, uma menina chamada Liz que não conhecia a sua verdadeira história . E por não saber das suas origens, vivia se confundindo. Achava que tinha 4 irmãos, e que era a 3ª filha de um casal, mas na verdade tinha mais 4 irmãos que não estavam por perto, mas eram seus irmãos. Na verdade, a Liz era a 5ª entre os seus 9 irmãos.

Na vida de Liz era como se faltasse alguma coisa. Como se ela estivesse fora do lugar, ou que tivesse que tomar decisões que não eram da alçada dela. Sempre estava se envolvendo em confusões familiares e “sobrava” pra ela.

Liz tinha muito medo de ficar sozinha e queria se sentir amada, protegida, valorizada. Mas ela estava tão acostumada a sentir medo, a ser rejeitada, que não acreditava que merecia um amor verdadeiro e genuíno.

Até que, num dia de inverno, quando esquiava na neve encontrou um jovem estrangeiro que também por ali passava. O seu coração bateu mais forte, as suas faces ficaram rosadas e sem explicação aparente, o menino foi se aproximando dela e disse com naturalidade:

- Estou te esperando há muito tempo. Que bom você ter chegado.

E sem explicações, a pediu em casamento e foram felizes para sempre.

Tanto eu, um Oiti e o gato ouvíamos a história sem acreditar naquele conto de fadas. Porém algo em mim se movimentou.

A partir daquele dia, conversei com serenidade com o gato.

Decidi, pois sempre sou eu quem decide, que seria mais livre, mais forte e mais corajoso.

Percebi que por mais ventos, tempestades, calor, hostilidade recebida por várias pessoas, as minhas raízes são fortes e profundas e sempre estarei pronto para executar a minha missão de vida que é crescer, florescer e frutificar.

Se o gato, mesmo diferente, quisesse vir comigo, poderia, mas ele também precisaria contribuir para o crescimento do bem comum. Posso até contar para ele como faço, mas não posso fazer por ele, até porque ele tem hábitos e valores diferentes dos meus.

Hoje, depois de vencer o medo, sinto-me mais forte, mais dono de mim. E sem fazer esforço, sou amado, valorizado e respeitado por todos os que me rodeiam.

Sinto-me livre e em paz, como se estivesse acordado de um pesadelo.

Ah! e o gato?

Bem... o gato continua a fazer do jeito dele, mas agora já não mais me incomoda.

O gato é o gato e eu sou um OITI.


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